• Marcia Righetti

A Educação da Linguagem nas Classes de 3 a 6 anos segundo Montessori

A educação da linguagem após os 3 anos consiste em ajudar a criança a enriquecer seu agora modesto vocabulário e dar-lhe consciência da sua linguagem.(Maria Teresa Marchetti, em Maria Montessori: il pensiero, il metodo, Giunti & Lisciani Editori, a cura dell’Opera Nazionale Montessori, 1993)


Na afirmação de Marchetti, Maria Montessori entendia que educar a linguagem não significa simplesmente ensinar linguagem, mas promover a descoberta dos fatos da língua, o que é sempre interessante e fascinante. É competência da escola ajudar a criança a aperfeiçoar e consolidar a estrutura da língua, propor possibilidades que fortaleçam a competência linguística para que, então, possa ser realizada com excelência a função cósmica da linguagem: ampliar e dar precisão à comunicação entre os humanos.


Para Montessori, a linguagem é parte da unidade psicobiofísica. No homem, todas as possibilidades de desenvolver a linguagem nascem com cada novo ser. Elas estão presentes desde o nascimento e se desenvolvem como um único organismo; embora cada sistema tenha suas funções separadas, eles se conectam para dar a unidade ao indivíduo (microcosmo), permitindo que a linguagem cumpra sua função cósmica, conectando todos os indivíduos (macrocosmo) entre si.


Montessori comprovou, por meio do estudo científico que realizou com as crianças, que entre os 3 e os 6 anos de idade elas atravessam um período caracterizado pela tomada de consciência de tudo que absorveram inconscientemente no período precedente, por um processo de adaptação ao seu espaço, fazendo explodir a linguagem materna.


A educação da linguagem na “Casa dei Bambini” (3 a 6 anos) está diretamente relacionada com o conhecimento do mundo e as relações que cada criança trava com a cultura, a natureza e com seus pares: a ampliação do vocabulário, a construção de significados e o desenvolvimento da consciência das estruturas. A Linguística, estudo da linguagem, tenta responder a perguntas como: o que é a linguagem, como a linguagem funciona, o que todas as línguas têm em comum, como as línguas diferem uma da outra, que tipos de variedades ocorrem dentro de uma mesma língua, como diferem as formas falada e escrita da linguagem, como as crianças adquirem a linguagem, por que as línguas mudam e se diferenças entre grupos da sociedade se refletem em sua linguagem. Os primeiros a considerarem a Linguística um assunto acadêmico sério foram os franceses, os quais a dividiram na “langue” e na “parole”. A “langue” era a língua “verdadeira”, livre de erros. A “parole” era o que, de fato, as pessoas diziam, com todos os seus erros, contrações, gírias e assim por diante… (por exemplo, os estrangeiros, as crianças etc.). Hoje, poderíamos dizer que a “langue” é a linguagem culta e a “parole”, a linguagem coloquial.


Os franceses estavam interessados na “langue”. Após algum tempo, desenvolveu-se um interesse maior pela “parole”, visto que as pessoas realmente diziam isso, porque perceberam que as mudanças e as “imperfeições” na linguagem não eram fortuitas. Elas também eram governadas por uma gramática. Isso conduziu ao desenvolvimento da Psicolinguística — desenvolvimento individual da linguagem — e da Sociolinguística, os modos pelos quais os grupos mudam a linguagem e a usam. A Psicolinguística, no que tange ao desenvolvimento infantil, trata de como as crianças, crescendo, mudam o uso e o entendimento da linguagem. A Sociolinguística abrange todas as maneiras em que os grupos usam a linguagem.


ALGUNS TERMOS E CONCEITOS

Morfologia na Linguística, morfologia é o ramo da gramática dedicado ao estudo da estrutura ou formas das palavras, principalmente pelo uso da construção do morfema. É tradicionalmente distinto da sintaxe.

Sintaxe na Linguística, sintaxe é um termo tradicional para o estudo das regras que regem a combinação das palavras para formar frases. É diferente da morfologia, que é o estudo da estrutura da palavra.

Morfema, morfema é uma unidade de significado. Não está, obrigatoriamente, relacionado à “contagem de palavras” ou à “contagem de sílabas” de um discurso. Segue um exemplo de como os morfemas são contados nas palavras: FELIZ — “Feliz” é UMA PALAVRA, tem DUAS SÍLABAS (fe-liz) e, porque contém uma única unidade de significado, conta como UM MORFEMA. INFELIZ — Se você adicionar outra unidade de significado, como IN, para transformar “feliz” em ‘'infeliz”, você ainda tem UMA PALAVRA, mas com TRÊS SÍLABAS (in-fe-liz) e DOIS MORFEMAS (“in” e “feliz”).


DESENVOLVIMENTO NORMAL DA LINGUAGEM


ESTÁGIOS DE BROWN (BROWN, Roger. A first language: The early stages. London: George Allen e Unwin, 1973.) É esperado que crianças entre 15 e 30 meses tenham extensão média de Expressão Medida em Morfemas (EMEM) de aproximadamente 1.75 morfema, o qual aumenta gradualmente à medida que adquirem mais vocabulário. No Estágio I, assim que possuem um vocabulário de 50 a 60 palavras, as crianças adquirem a habilidade para construir frases típicas, nas quais a palavra tem peso de frase.


VISÃO DE MARIA MONTESSORI: O período sensível para a aquisição da linguagem é do nascimento até 6 anos. A criança já nasce com algo: algum tipo de “pré-conhecimento” e habilidades linguísticas inatas, algum contexto. Montessori refere-se às nébulas da linguagem. A criança, um aprendiz ativo, é especialmente sensível à, atraída para, interessada em linguagem. Isto é, na linguagem como comunicação, como forma de adaptação ao meio; não como exercício visando à proficiência sem relação com seu dia a dia.


A VISÃO DE VYGOTSKY Para Lew Vygotsky, há uma Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), indicativa de que o sujeito pode ter sucesso num determinado conjunto de habilidades se assistido por um adulto ou alguém mais experiente. É nessa região que estão as habilidades ainda em desenvolvimento pelo sujeito. Se pegarmos duas crianças que apresentem a mesma ZDP, ambas poderão ter graus diferentes de sucesso na solução de problemas assistidos. As habilidades nas quais as crianças apresentam sucesso na solução de problemas assistidos serão aquelas nas quais o sujeito poderá ter sucesso sozinho depois de algum tempo, se o desenvolvimento seguir seu curso normal. Desse modo, para Vygotsky, a região onde a escola deve trabalhar é a da ZDP, de modo a alavancar o processo de desenvolvimento dessas funções. Para o socioconstrutivista Lev Vygotsky, a linguagem é central no desenvolvimento das crianças de menos de 6 anos de idade.


VISÃO DE PIAGET Para Piaget, a linguagem faz parte de uma organização cognitiva mais geral, a qual mergulha suas raízes na “ação e nos mecanismos sensório-motores mais profundos do que o fato linguístico”; em particular, é um dos elementos de um feixe de manifestações na qual participam o jogo simbólico, a imitação diferida e a imagem mental. Dessa forma, Piaget entendia o cognitivo como uma adaptação, que organiza a função de estruturar o universo do indivíduo, relacionando o pensamento e os objetos, onde a capacidade cognitiva construirá mentalmente as estruturas capazes de serem aplicadas às do meio. Quando tais conquistas cognitivas se unem, superando as inteligências sensória e motora, a caminho da inteligência pré-operatória de fases posteriores, surge a possibilidade de a criança adotar os símbolos públicos da comunidade mais ampla em lugar de seus significantes pessoais, ou seja, a linguagem se torna possível, já que a linguagem é entendida, por Piaget, como um sistema simbólico de representações, assim como outros aspectos da função simbólica geral. O desenvolvimento do uso de sistemas de símbolos, em especial a linguagem, marca a transição para o Pré-Operacional.


VISÃO DE EMÍLIA FERREIRO Um dos segredos ocultos na criança, revelado por Maria Montessori na primeira Casa dei Bambini, em 1907 e em seu livro “O Método da Pedagogia Científica”, foi como as crianças constroem a linguagem. Somente na década de 1970 a educadora Emília Ferreiro, em sua tese de doutorado, iniciou os estudos sobre a construção da linguagem escrita, publicando em 1986 “Los sistemas de escritura en desarollo del niño”, publicada no Brasil com o nome de “A Psicogênese da língua escrita”.

Essa obra tem como foco, como fez Maria Montessori, a aquisição do conhecimento à luz de quem aprende e não apenas de quem ensina. Ferreiro estava preocupada com o alto índice de analfabetismo na América Latina e começou a se perguntar sobre o que estava errado para justificar um desempenho tão negativo das crianças. A resposta para suas pesquisas — com crianças de Buenos Aires — ultrapassou os limites regionais: hoje, seus conceitos são mundialmente aceitos. A partir das teorias do biólogo francês Jean Piaget, de quem foi assistente em Genebra, a educadora concluiu que a criança levanta hipóteses acerca da escrita e constrói seu conhecimento em quatro fases, as quais podemos assim sintetizar: (1) Etapa pré-silábica: a escrita não tem relação com a emissão da fala (a palavra boi, por exemplo, não é percebida como "pequena" pela criança, que pode graficamente representá-la com vários rabiscos). (2) Etapa silábica: aqui, a criança descobre a relação fonema-grafema (só que a sílaba "ba", por exemplo, será lida por ela apenas como "a"). (3) Etapa alfabética: nessa fase, começa a colocar as primeiras sílabas, formando o "par". (4) Etapa ortográfica: a criança vai finalmente em busca das regras do sistema.


SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM ORAL

Dar à criança uma experiência do que cada palavra “faz” e explorar como funcionam é o papel das atividades que promovem o desenvolvimento da linguagem de forma geral e da linguagem oral em especial. Essa preparação para a aquisição de um vocabulário rico e significativo precisa ser, sobretudo, interessante. Essas experiências, fundamentadas nos pressupostos montessorianos, se desenvolvem por meio da manipulação de objetos, em diferente situação e com muita dramatização. Tudo é um processo, é uma exploração, as crianças vão entendendo todos os princípios do idioma em um nível bem profundo, o qual possibilita a aquisição da linguagem oral. O que as atividades de linguagem oral, “os jogos” fazem é simplesmente explorar o idioma em diferentes circunstâncias e de forma sistemática, constituindo-se em uma “ajuda à vida” — como diria Maria Montessori, uma ajuda ao desenvolvimento natural da criança para que seu potencial possa ser mais bem utilizado.


“Ainda que traga com ela ao nascer a ‘nébula da linguagem’, o que nos referimos nesse momento é sobre o que a educação pode lhe oferecer: condições de um maior refinamento diante de um processo natural de desenvolvimento.”


A Natureza oferece à criança a oportunidade de crescer, ela lhe dá independência e a guia para a liberdade." (La mente del bambino, Garzanti Ed., 1980)


SOBRE A CONSTRUÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA, A ÓTICA E A ESTRATÉGIA METODOLÓGICA MONTESSORIANA

"A escrita é um ato complexo que precisa ser analisado. Contém uma parte que se refere aos mecanismos motores e uma outra que representa um trabalho verdadeiro e próprio da inteligência." ("La scoperta del bambino”, p. 222, “Il mecanismo della scritura”)


Esses mecanismos motores, segundo Montessori, podem ser ainda divididos em dois grupos: aqueles que dizem respeito ao traçado dos símbolos e, ainda, os que dizem respeito ao manejo do instrumento de escrita (o lápis). A educação dos movimentos, os quais mais tarde resultarão no ato da escrita, é cuidadosamente abordada em atividades que se iniciam com a utilização do material sensorial, ou de educação dos movimentos — esses exercícios vão constituir a preparação indireta da mão para a escrita.


"Ela, então, se dá conta de que as crianças já haviam feito atividades com o material sensorial nas quais o toque era realizado como o toque posterior nas letras de lixa, no sentido da escrita. Na idade infantil se fixam os mecanismos motores. Aquelas crianças haviam aprendido a escrever sem escrever." (Maria Teresa Marchetti, em Maria Montessori: il pensiero, il metodo, Giunti & Lisciani Editori, a cura dell’Opera Nazionale Montessori, 1993)


Sendo a Natureza sábia, enquanto a inteligência se prepara, os órgãos físicos aquecem-se para que depois, em harmonia, possam chegar à maturação, acontecendo a "explosão" no processo. Por volta dos 4 anos, os órgãos motores e a inteligência estão preparados para o aprendizado da escrita. Estando essa janela de aprendizagem aberta, que capacidades e competências precisam ser desenvolvidas para que ela se processe de forma plena? As capacidades motoras, sócio afetivas, cognitivas, visuais etc. Vejamos o que diz Montessori em sua obra:


Sobre as capacidades motoras: "... é a pequena mão da criança pequeníssima de 4 anos que toca todas as coisas em torno na tentativa irresistível e inconsciente de estabilizar sua coordenação definitiva." "Primeiro era guiado por uma força interior, inconsciente; agora é seu "eu" que o guia, é sua mão que se mostra ativa. É como se a criança que absorvia o mundo por meio de uma inteligência inconsciente, agora o retivesse em suas mãos." ("La scoperta del bambino", Garzanti Ed., 1970)


Sobre as capacidades cognitivas: "Uma outra coisa que observamos é que a criança dessa idade (4 anos) aprende muitas palavras novas, apresenta uma especial sensibilidade e um interesse pelas palavras e delas se apropria espontaneamente. Por meio de muitas experiências, constatou-se que o enriquecimento do vocabulário é uma conquista própria dessa idade." ("La scoperta del bambino", Garzanti Ed., 1970)


Sobre as capacidades emocionais: "A personalidade é una e indivisível e todas as atitudes da mente dependem de um único centro. É esse o segredo que a própria criança revelou, cumprindo seu próprio trabalho, bem superior ao nosso e as nossas expectativas em todos os campos." ("Come educare il potenziale umano", Garzanti Ed., 1992)


O trabalho para desenvolver as capacidades físicas: tônus muscular, ponto articulatório adequado para os fonemas, audição capaz de identificar sons vocais e não vocais, coordenação motora etc.


UMA VISÃO GERAL DA SEQUÊNCIA DO TRABALHO


No currículo de linguagem de Montessori, o aspecto da construção da linguagem gráfica tem três componentes essenciais: uma fundamentação fônica significativa; a compreensão baseada na visualização e na metacognição, isto é, a visão da língua como um todo; e a aprendizagem da leitura usando os indícios do contexto.


A leitura segundo Montessori é baseada em estímulos multissensoriais e é normal que as crianças construam as palavras antes de ler. Escrever e ler são dois processos diferentes que envolvem a codificação e a decodificação. Atividades apropriadas de desenvolvimento da linguagem permitem às crianças a construção de sua própria compreensão de como os sons são representados por símbolos e de como podem juntar e organizar esses símbolos de forma a usá-los da forma codificada que exige a linguagem escrita.


Numa classe Montessori por volta dos 4, 4 anos e meio, as crianças estão prontas para começar naturalmente um processo de preparação para a escrita e leitura; mas, na realidade, tudo isso já começou bem cedinho quando foram cuidados desde as classes dos pequeninos os pré requisitos para sedimentar este processo com a construção de um acervo linguístico rico e usado com propriedade, com órgãos físicos desenvolvido para dar conta da articulação dos sons, da discriminação auditiva, da discriminação visual, da motricidade, para dar conta da escrita propriamente dita.


Com a aprendizagem dos sons e letras e utilizando as “letras de lixa”, os aprendizes fortalecem a memória muscular e com os encaixes de metal refinam o manejo do instrumento da escrita: o lápis.


Quando as crianças aprendem os sons fonéticos, constroem a unidade fonológica; estão prontas para começar a construção das palavras com o alfabeto móvel e acontece a explosão da escrita.


A fim de permitir que as crianças trabalhem independentemente, primeiro são oferecidos objetos fonéticos (miniaturas ou reálias) que representam as palavras que devem ser construídas. Mais tarde, cartões de vocabulário, com gravuras cujos nomes são palavras fonéticas, devem ser introduzidos para permitir variedade nos exercícios e a prática adicional da construção da palavra, com o uso do alfabeto móvel .

Depois que a criança dominou a construção de palavras, pode começar a combinar bilhetinhos com os objetos ou com os cartões de nomenclatura iniciando-se na leitura propriamente dita.


Nessa etapa podem ser apresentados objetos e etiquetas, nas cestas de leitura, depois cartões classificados de nomenclatura e etiquetas: e bilhetinhos, palavras fonéticas de cinco ou seis sons.


Nesse tempo a criança pode começar a ler frases e sentenças com palavras fonéticas, combinando-os com os cartões de nomenclatura. Então, são introduzidos os livros fonéticos especialmente preparados pela professora.


A chave para a “compreensão” é que, por meio da visualização da palavra escrita, a criança tenha a possibilidade de explorar e levantar hipóteses que construam a escrita e a leitura com material apropriado.


A visualização é um componente essencial também nas atividades de gramática, na qual uma compreensão da função das palavras é desenvolvida com o uso de atividades manipulativas. Trabalhar com essas atividades dá às crianças uma prática mais adicional na leitura e uma compreensão maior do “todo” que compõe a língua.


Somente depois que as crianças dominarem os sons fonéticos das letras é que devem ser introduzidos os dígrafos, os sons representados por combinações das letras como ch, nh, lh, rr, ss, qu, gu, sc, os sons diferentes do s ou do x e outras pronúncias menos comuns das letras. Uma vez que o professor introduziu um som novo, as crianças podem trabalhar independentemente para dominar o som nas palavras. É o professor quem introduz a cultura e a linguagem escrita à parte da cultura. Após ter dominado os dígrafos, o interesse das crianças vai conduzi-las à leitura do livro que desejarem.


É quando gostam de fazer seus próprios livros e ilustrá-los. É uma ótima oportunidade de construírem belos livros sobre o mundo real. Há também muitas atividades de leitura relacionadas à Ciência, à Geografia, à História ou à gramática.


Por Marcia Righetti. Especialista e Coach em Educação Montessori. Fundadora da Aldeia Montessori, Rio de Janeiro e do Centro de Estudos Montessori do Rio de Janeiro.


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